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sábado, 15 de outubro de 2011

51% topam imposto para saúde

Por Paulo Moreira Leite

Há um dado relevante na reportagem de capa de Ricardo Mendonça publicada pela Época. A revista quis saber se os brasileiros concordariam em pagar um novo imposto para saúde. A resposta é sim.

Desde a posse do governo Dilma que se discute o assunto em Brasilia. Num país onde gastos do governo costumam ser associados apenas a desvios e a corrupção, como se não produzissem nada de útil para a sociedade, a derrota da idéia parecia uma barbada.

Recentemente, até a bancada do governo baixou a guarda e evitou debater o assunto quando a Câmara votou a emenda 29, que define gastos para saúde.

A resposta na pesquisa: 51% são a favor e 46% são contra.

O resultado é uma surpresa em parte. É verdade que a denuncia dos impostos altos e injustos mobilizou a classe média e tornou-se ponto de honra dos empresários. A discussão sobre carta tributária tem uma base na realidade: muitas pessoas efetivamente pagam impostos demais.
A malha de tributos é tão complexa de chega a ser irracional e cria entraves para o desenvolvimento.
Em função destes argumentos, muitas vezes justos, parecia que a população chegara a uma conclusão complicada: a de que não adianta aumentar as receitas da saúde pública porque o atendimento iria continuar ruim como sempre foi.
A pesquisa mostra que não é assim. Por uma margem de 63%, os brasileiros reclamam que a carga tributária é alta demais. Ao mesmo tempo, concordam em pagar mais — desde que seja para a saúde.
Quanto mais pobre o eleitor, maior seu apoio a idéia. São essas pessoas, na verdade, que mais utilizam o SUS. Enfrentam a falta de médicos, a demora para fazer exames complicados, o atendimento que nem sempre é educado. Conhecem os chamados problemas de gestão, gravíssimos, mas tem certeza de que também faltam recursos.

Antonio Lavareda, que dirigiu a pesquisa, disse a Epoca que este apoio do eleitor a um novo imposto reflete seu desalento. “O problema da saúde no Brasil é tão grande, mas tão grande, que as pessoas até topam pagar mais para o governo se for para resolvê-lo.”

Muitas pessoas consideram que, como os pobres são os que mais utilizam o sistema público de saúde, são aqueles que tem maior interesse em ver melhorias nos serviços. Tem lógica.
Tem lógica mas talvez não seja inteiramente correto.

Um novo imposto para saúde irá ajudar toda pessoa que decidir usar o serviço público de saúde, sem distinção de origem e classe social. Não é, portanto, uma espécie de egoísmo socialmente aceitável, já que se destinaria apenas aos menos favorecidos.

A pauperização da saúde pública empurrou a classe média para os planos privados, que funcionam e só podem funcionar pelas regras de ferro da economia de mercado: recolhem gordas mensalidades de quem pouco utiliza seus serviços, mas fecham as portas para o cidadão que já chegou naquela fase da vida em que todos precisam de atendimento regular e caro — e só representa prejuízos.

Muitos brasileiros de classe média que vivem com o orçamento apertado pagam pequenas fortunas mensais para planos de saúde que definem o atendimento de acordo com o talão de cheques do fregues. Criam dificuldade para aprovar exames sofisticados, controlam internações e pressionam médicos a reduzir custos — sem falar em honorarios ridiculamente baixos, que levaram a categoria a realizar até greves nas últimas semanas.

A discussão de um novo imposto para saúde não implica em reforçar o caixa do SUS com bons trocados a mais. Envolve um esforço para resolver problemas de gestão, para ampliar o conceito de quem deve ser atendido. Essa é a discussão.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Os desafios do Ministério da Saúde

Do Valor

"Saúde deve mostrar serviço com verba que tem"

Raymundo Costa | De Brasília
11/03/2011


Ruy Baron/Valor

Antes de pedir mais dinheiro para a saúde, o ministro Alexandre Padilha vai tentar gastar melhor o que tem. Só com isso - acredita - será possível convencer a sociedade a permitir novas formas de financiamento e levar a saúde a padrões de primeiro mundo. Segundo Padilha, o Brasil tem o programa - Sistema Unificado de Saúde (SUS) - que mais faz transplantes e hemodiálises do mundo, e, no entanto, gasta apenas R$ 660 per capita. Isso somados União, Estados e municípios. Só a União investe R$ 304 per capita. Inglaterra e Canadá gastam seis vezes mais. Há dois meses no Ministério da Saúde, Padilha diz que há uma revolução a caminho, que vai desde um novo modelo de construção de unidades de saúde, até a mudança da forma de remuneração dos hospitais. Ele quer regionalizar os atendimentos de saúde. Cobrar compensação dos planos por seus segurados atendidos na rede SUS é prioridade dele e da presidente. Não dá prazo, mas diz que já este mês concluirá a primeira etapa da implantação do Cartão SUS. A seguir, a entrevista concedida aoValor:

Valor: O problema da saúde é mais de gestão ou de dinheiro?

Alexandre Padilha: Eu não tenho dúvidas de que a gente pode fazer muito mais com o que temos. A prioridade é dupla: investir melhor o que nós temos e ter mais para investir cada vez melhor. Agora eu tenho plena consciência de que no debate com a sociedade, neste momento, a prioridade do ministério é mostrar claramente que pode fazer mais com o que tem, aumentar os controles, ter pactos cada vez mais claros com o que tem e definir melhor suas prioridades, até para a sociedade ter segurança e a economia brasileira poder colocar mais recursos para a saúde para que a gente possa atingir os patamares de outros países. Porque há países em que o investimento no setor é de dez, 11, 12 vezes mais per capita.

Valor: Com atendimento universal?
Padilha: O dos EUA é o que mais investe, é 11, 12 mais, mas é muito privado. Canadá e Inglaterra, seis, sete vezes mais. No Brasil, a saúde suplementar é quase três vezes maior que a saúde pública per capita. Mas atende a 45 milhões de pessoas. O SUS, teoricamente, atende 190 milhões, mas, na prática, responde por 150 milhões. O investimento per capita da saúde suplementar é quase três vezes mais o per capita da saúde pública.

Valor: O senhor vai retomar o projeto das fundações estatais para gerenciar a saúde?

Padilha A prioridade é o aprimoramento da gestão do SUS. Acho um grande erro misturar aprimoramento das gestão, com modelo gerencial administrativo.

Valor: O que precisa para que os hospitais públicos tenham o padrão da rede Sarah Kubitschek?

Padilha: Temos alguns hospitais públicos do mesmo padrão. Alguns hospitais universitários. A rede Sarah Kubitschek é uma rede que nos orgulha a todos. É uma rede em parte é financiada com recursos públicos. Tem excelência na gestão.

Valor: É uma fundação. O senhor é contrário a esse modelo?

Padilha: Só não acho que essa seja a centralidade do debate do modelo de gestão. São alternativas gerenciais importantes. Nós precisamos compreender o SUS. O sistema brasileiro é formado por modelos gerenciais diversos. Isso é a riqueza do SUS. Eu sou favorável a qualquer modelo gerencial que cumpra suas diretrizes. No SUS você tem hospitais só estatais de altíssima qualidade, e hospitais só estatais que não são nada públicos, são quase privados. São tão privados quanto hospitais privados, com trabalhadores poucos valorizados. No SUS você tem fundações de altíssima qualidade que seguem as diretrizes do SUS e você tem fundações de baixíssima qualidade na execução. Você tem modelos novos de PPPs, de alta qualidade assim como de baixa qualidade. Precisamos é aprimorar a gestão do SUS na definição da prioridades para investimento.

Valor: Quais são essas prioridades?

Padilha: Às vezes há recurso, investimento, equipamento e estrutura, mas o processo de trabalho na unidade faz com que o atendimento seja de baixa qualidade.

Valor: Por que?

Padilha: A unidade precisa ter uma agenda aberta para o acesso. Há unidades de saúde que têm equipamento, estrutura e profissionais, mas funcionam com a agenda fechada, não acolhem quem chega. Quando acolhe, não faz análise de risco. Então, quem está em situação grave tem o mesmo cuidado e prioridade de quem não está, fica no mesmo lugar, não tem espaço de organização para cada um deles.

Valor: Como será a mudança na gestão?

Padilha: A prioridade, em gestão, é ter instrumentos mais sólidos no contrato entre União, Estados e municípios. Que este contrato seja fruto do que nós estamos chamando de mapa sanitário regional.

Valor: O que é esse mapa?

Padilha: É preciso regionalizar a saúde no país. Esse mapa vai definir qual o território necessário para compor uma rede que vai da atenção básica até uma certa complexidade. Nesse território tem vários gestores. A gestão pura municipal, outro é um hospital estadual, outro, um hospital filantrópico credenciados do SUS. Então você tem vários modelos gerenciais no espaço regional. A nossa centralidade é a gestão das redes no espaço territorial, é isso que pode melhorar a qualidade de saúde do país.

Valor: Como centralizar a gestão?

Padilha: Fazendo os contratos entre Estados e municípios a partir da realidade regional com objetivos e metas claras a serem cumpridas e acompanhadas.

Valor: Fácil assim?

Padilha: Junto com isso pensamos em criar um indicador nacional de garantia de acesso que tenha expressão regional e, de certa forma, tenha o que o SUS oferta para as necessidades de saúde daquela região, o que consegue resolver naquela região. Em que medida o acesso é de qualidade e do nível de satisfação do usuário. Precisamos de um indicador de satisfação do usuário. Isso para compor um grande indicador nacional que pode ter a expressão regional, a expressão estadual e que seja um marcador para a melhoria da saúde para aquela região, para aquele Estado.

Valor: Para que serviria esse indicador?

Padilha: Por exemplo, uma região hoje é nota dois. Nós queremos que em quatro anos ela chegue a cinco. Por esse indicador, União, Estados e municípios definirão a estratégia para que essa região chegue aos cinco.

Valor: A presidente Dilma diz que antes é preciso saber "para quê" vai se pedir mais dinheiro para a Saúde. O senhor sabe?

Padilha: A prioridade são essas duas grandes portas de entrada do SUS: atenção básica e a porta da urgência e emergência. A atenção básica, para ser resolutiva, precisa ter o suporte permanente da atenção especializada.

Valor: Como assim?

Padilha: O médico que está no centro de saúde tem que analisar seu diagnóstico com um médico da atenção especializada fazendo uso da telemedicina. Isso significa reestruturar fisicamente a unidade básica de saúde. É preciso renovar o padrão construtivo das unidades de saúde do país. A vida média dos nossos hospitais é de 35, 40 anos. São construídos no padrão de uma medicina que não existe mais. Por exemplo: a realidade das urgências e emergências. A grande maioria foi construídas quando as urgências e emergências eram um espaço pequeno, a centralidade nos hospitais eram os leitos de internação crônica, de longa duração. Salvavam-se poucas vidas na urgência e emergência. Isso mudou nos últimos 15 anos. Então você tem de mudar todo o padrão construtivo das urgências e emergências do país, para garantir equipes estejam lá, quando forem demandadas, mas também assegurar a relação desta unidade com a atenção hospitalar de média complexidade.

Valor: Como seria esse espaço?

Padilha: A ideia é ter urgências e emergências amplas. Em rede. Na atenção básica tem uma sala de observação, é o primeiro atendimento. No meio do caminho tem uma Unidade de Pronto Atendimento e o transporte seguro, que é o Samu. É preciso ter uma unidade de urgência e emergência hospitalar em que a entrada seja ampla, faça classificação de risco, diga quem é de risco alto, vermelho, quem é de risco intermediário, amarelo, quem não é de risco. Haverá também o leito de retaguarda. Um dos problemas da urgência lotada não é que as pessoas não estejam sendo atendidas. Falta um leito de retaguarda para encaminhar essa pessoa.

Valor: Onde se poderia justificar novos recursos?

Padilha: O acesso ao que tem de mais alta complexidade. O Brasil hoje tem um déficit importante de cirurgia de ortopedia. Seja de cirurgia de urgência e emergência de trauma, que é decorrente de acidente, seja de reabilitação. Há também uma população cada vez maior de acesso a medicamentos de alto custo, quimioterápicos, radioterápicos, que impactam fortemente a realidade de saúde. Isso é de alto custo. O Brasil é o país que mais faz transplante público no mundo, o que tem a maior rede de hemodiálise totalmente pública no mundo. Gratuita, universal.

Valor: Com dois meses no cargo, já deu para identificar os principais gargalos da saúde?

Padilha: Um é esse: os mecanismos de contratualização entre União, Estados e municípios. É um gargalo importante, fundamental. Ou seja, os instrumentos que definem os repasses entre União, Estados e municípios, e que estabelecem metas de compromisso e que induz financeiramente e premia quem cumpre meta. Outra prioridade é a definição do que compõe uma rede de atenção à saúde.

Valor: Por quê?

Padilha: O processo de construção do SUS foi um processo de descentralização para os municípios. Se jogou muito peso no processo de descentralização e menos nas outras diretrizes fundamentais do SUS que são o acesso e a integralidade, ou seja, dar para a pessoa o cuidado integral.

Valor: A saúde suplementar atende mais de 45 milhões de pessoas, que também se servem da rede pública. Quando é que os planos de saúde vão começar a ressarcir o SUS? Isso também não é financiamento da saúde?

Padilha: Esse ressarcimento é prioridade nossa. Nós primeiro precisamos aprimorar as informações que o SUS tem dos atendimentos dos planos de saúde para que se possam estabelecer metas de ressarcimento. A ideia do Cartão Nacional de Saúde, conhecido como o cartão SUS, também é pra isso. Ele é fundamental para reorganizar o sistema. É nossa prioridade, é prioridade da presidenta.

Valor: Qual é a parcela dos usuários dos planos atendida pelo SUS?

Padilha: Há várias estimativas e aproximações. Algumas unidades hospitalares dizem que chega a 15%, 20%, mas hoje não se tem esse dado com precisão. O que se tem hoje é uma estimativa que varia de R$ 500 milhões a R$ 1 bilhão por ano, mas são estimativas. O que se sabe muito claramente é que em geral é muito comum quem tem plano de saúde se utilizar do SUS na urgência e emergência. É muito comum também para o uso do medicamento mais caro, quimioterápico, radioterapia que o plano não cobre, transplantes, cirurgias com alta tecnologia. Isso é muito comum. O ressarcimento é fundamental para compensar, e, mais do que isso, para identificar cada vez mais quais são os pontos de complementariedade. A partir da definição desses pontos é possível construir uma agenda comum de organização dos serviços.

Valor: Como o senhor pretende convencer os planos de saúde, que resistem a fazer ressarcimento?

Padilha: Há uma disputa, inclusive de questões legais. São questionamentos não sobre a lei, que estabelece limites para o mecanismo de ressarcimento. Mas há um interesse também da saúde suplementar de que essa complementariedade seja mais clara. Nós estamos conversando.

Valor: Já existe um cronograma para a implantação do cartão?

Padilha: Fechado não. Nós estamos fechando agora um diagnóstico de quais são os municípios que já usam hoje. Vários municípios já usam o número do cartão SUS para a organização e gestão de seus serviços. Esse diagnóstico fica pronto agora na metade de março. São cerca de 700 municípios. Não necessariamente têm um cartão. Às vezes usam só o número que está cadastrado. Há quase 100 milhões de pessoas cadastradas com o registro do número SUS. Tem 130 milhões de pessoas cadastradas e 100 milhões de cadastros limpos, higienizados de um número do cartão SUS. São Paulo usa o número do cartão SUS para toda a rede básica do Estado. Diadema (SP) usa para tudo: básica, média e alta complexidade e Belo Horizonte (MG) também.

Valor: Então o cartão sai este ano, depois de oito anos e dois governos de discussão?

Padilha: Não dou prazo. O Conselho Nacional de Saúde já discutiu o assunto ano passado.

Valor: O senhor vai primeiro tentar o acordo com a saúde suplementar para ter mais recursos ou o aumento do financiamento via CPMF ou CSS?

Padilha: Eu não vou discutir fonte de financiamento. Meu esforço é aprimorar a gestão para fazer mais com o que nós temos para que o crescimento da economia seja generoso com a saúde no país. Agora uma coisa não tem relação com a outra. O ressarcimento não resolve o problema do financiamento do SUS. O ressarcimento é muito mais que uma compensação pelo uso - ele permite identificar complementariedades entre o SUS e a saúde suplementar.

Valor: O senhor vai reajustar a tabela SUS como reclamam os hospitais?

Padilha: Estou convencido de que nós precisamos apostar num novo modelo de financiamento dos procedimentos da saúde. Todas as experiências mostram que se você puder fugir do modelo de remuneração por procedimento e passar para um modelo de remuneração por pacote - diagnóstico, tratamento e qualidade de serviço, sobretudo alta - você tem resultados e utilização melhor dos recursos. A grande demanda que os hospitais fazem em relação à tabela SUS não é só se vai ou não reajustar, mas discutir qual é o perfil assistencial de cada um desses hospitais. E você sai comprando procedimento pontual em cada hospital. Em vez de pagar procedimento, eu prefiro contratar 20, 30 leitos, blocos de leito, contratar as equipes desse hospital.

Valor: Pelo visto, logo vamos ter um Plano Nacional de Saúde.

Padilha: Ah, isso também!

Valor: Como está sua relação com os governadores da oposição?

Padilha: Ótima. Com todos os da oposição. Um grau de convergência grande tanto com os da base [de apoio ao governo] quanto com os da oposição. Todos sentem na pele a escassez da falta de médico onde se precisa, da distribuição de médicos, da necessidade de reestruturação física das unidades, de se pensar novos modelos da contratação e remuneração de serviços que são ofertados. Hoje há uma grande convergência em relação aos desafios da saúde, não só dos governadores quanto dos secretários dos partidos de oposição. Com alguns deles eu tenho identidade inclusive profissional anterior. Em São Paulo, além de ótima relação profissional com o governador Geraldo Alckmin [PSDB}, do ponto de vista político, o secretário de Saúde é professor da USP, instituição à qual eu estava ligado, então a relação é a melhor possível. Isso é bom porque acho que podemos construir um grande consenso entre a base do governo e a oposição sobre os desafios da saúde no país.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Não maleficência: a segurança como uma obrigação profissional

Não maleficência: a segurança como uma obrigação profissional

De todas as liminares antigas encontra-se enquanto navegamos os escritos de Hipócrates, o mais profundo para mim é o que adverte os médicos “fazer o bem ou, pelo menos, não causar dano.” De fato, o famoso juramento apela especificamente para o médico “considerar o benefício dos pacientes”, “não dar nenhum remédio mortal”, e “abster-se de tudo o que é prejudicial e pernicioso”.

Ressalto que estes pontos não fornecem uma lição de história, mas por causa da crescente preocupação que tenho que a segurança ainda não está em pé de igualdade com outros preceitos médicos como técnica cirúrgica ou confidencialidade.
Quantas vezes já ouvimos a frase “a cirurgia foi bem sucedida, mas que o paciente morreu?” Essas mortes não são sempre atribuídas a erros na sala de cirurgia, mas a infecções pós-operatórias, erros médicos, e problemas em casa devido à instruções impróprias ou falta de acompanhamento adequado atendimento.

Deixe-me oferecer apenas um dado estatístico: o consenso é de que cerca de 100.000 americanos estão perdendo suas vidas a cada ano nos hospitais devido a erros médicos, e muitos mais são prejudicados por infecções e complicações induzidas por medicamentos. Infelizmente, essas mortes e danos seriam evitáveis. Podemos evitá-los no futuro? Sim, eu acredito que nós podemos. Como Gerente Médico Executivo da Blue Cross e da Blue Shield Association, constantemente discuto com os colegas médicos e prestadores a necessidade de cuidados mais seguros, centrados no paciente e mais acessível.

Desses três itens, a segurança é primordial.

Não passa um dia sem meu e-mail ter um recall do produto ou outro exemplo de prática médica “errada” como resultado do julgamento pobre ou descuido.
Um exemplo disso apareceu recentemente no New England Journal of Medicine, que destacou o mau uso de testes de diagnóstico por imagem - fornecer como prova a história de um professor 59 anos de idade que receberam 100 vezes a dose de radiação média durante uma tomografia do cérebro. Um teste que aparentemente não era necessário, se a condição do paciente havia sido diagnosticada corretamente.
Tudo isso aponta para o fato de que nunca demos realce à segurança em medidas de senso comum, como o controle de exposição à radiação ou a equipamentos de imagem mais seguros.

Então, o que podemos fazer concretamente para se concentrar mais atenção na melhoria da segurança do paciente?

Vamos iniciar o utilizando grupos educativos nos hospitais, com o objetivo de incentivá-los a se empenhar mais na adoção de uma série de processos, incluindo o nível de danos medições do sistema que iria melhorar diretamente a segurança dos pacientes.

É hora de começar a criar equipes para o atendimento de qualidade e segurança. Afinal, a responsabilidade pela segurança nos hospitais está, em parte, em cada instituição do conselho de administração. Este é realmente o nome de um programa criado pelo Institute for Healthcare Improvement (IHI) para educar e engajar equipes hospitalares. Em muitos casos a responsabilidade e qualidade em matéria de segurança tem sido delegada pela direção para a equipe médica.

É por isso que eu estou encorajado pela iniciativa do IHI ter hospital todos os grupos gastem pelo menos 25 por cento do seu tempo de reunião sobre segurança e questões de qualidade. Igualmente importante, não é o objetivo maior das equipes de ter uma conversa com pelo menos um paciente (ou membro da família de um paciente) que sofreram danos graves no ano passado em sua instituição.

Mudança da área de decisão do hospital para o centro cirúrgico e listas de verificação pré-operatórias também podem ajudar a salvar vidas. Um simples questionamento antes de fazer a primeira incisão na sala de operação e, especificamente, verificar os materiais e instrumentos a serem utilizados, poderão ter um efeito dramático. Complicações caem drasticamente e os resultados melhoram significativamente quando este passo simples, tal como foi aprovado pela Organização Mundial de Saúde, é tomada pela equipe cirúrgica.

Também há os medicamentos apresentam complicações, já que são muito freqüentes em ambiente hospitalar, incluindo as doses administradas de forma inadequada. Mas este problema pode surgir mesmo em sua própria casa um paciente. O número total de medicamentos prescritos para o paciente que precisarão ser armazenados na prateleira da cozinha ou do banheiro poderá ser, na maioria das vezes, insuportável para o paciente ou seus familiares.

A maioria dos pacientes cronicamente doentes, por exemplo, tem muitos médicos diferentes, em várias clínicas, mas nenhum deles sabe o que os outros prescreveram. Os pacientes olham para os rótulos dos mediacmentos e ficam confusos. Ou tomam medicações demasiadas (com as decorrentes reações adversas), ou desistem. Isso pode resultar em reinternações, doenças evitáveis, e mais seriamente, em problemas graves, como insuficiência renal.

Evidentemente, precisamos de alguém na equipe de atendimento, e o médico da atenção primária seria o candidato ideal para assumir essa sopa de letrinhas farmacêuticas e o cuidado direto do paciente à exposição medicamentosa, buscando maximizar os benefícios e minimizar os danos.

A perda de vidas e danos à saúde são demasiado severos para esperarmos. É a hora de agir e de fazer da segurança a pedra angular da prática médica do século 21.


Allan Korn, MD , é médico-chefe e vice-presidente sênior de Assuntos Clínicos da Blue Cross e Blue Shield Association (BCBSA), uma federação nacional de 39 empresas independentes, baseadas na comunidade e no local operadas pela Blue Cross e pela Blue Shield.

sábado, 15 de janeiro de 2011

A importância da Acreditação Hospitalar

Desde a publicação do relatório Errar é Humano pelo Institute of Medicine 1999 (IOM), http://www.iom.edu, o tema segurança do paciente vem sendo abordado de forma intensa e com grande preocupação nas instituições de saúde de todo o mundo.

Uma realidade aparentemente desconhecida trouxe à superfície uma discussão profunda e complexa acerca da vulnerabilidade dos sistemas de saúde americanos, nas quais a evidência dos erros médicos trouxe preocupação quanto a real qualidade e eficácia do sistema de saúde.

Este relatório foi um grande divisor de águas para que uma mobilização de nível nacional surgisse e que ações de melhoria da qualidade na assistência de segurança do paciente ocupassem lugar nas pautas de discussões estratégicas dentro das instituições de saúde e fossem implementadas de forma imediata.

Apesar da evidência de que sistemas inseguros possibilitam a ocorrência de eventos indesejáveis, como infecções, erros de administração de medicamentos ou falhas em equipamentos, o impacto deste relatório mostra também que nas análises das causas potenciais desses eventos o “desenho” dessas instituições possui um grande impacto no resultado que se deseja alcançar.  

Essas ações de melhoria foram voltadas principalmente para a necessidade de um redesenho no atendimento ao paciente com o objetivo de identificar de forma individual as áreas e recursos vulneráveis para a prestação de serviço.

         Entende-se por desenho de sistemas complexos, e o ambiente hospitalar é um exemplo desses sistemas, aqueles cuja inserção tecnológica crescente, a necessidade contínua de aperfeiçoamento técnico e a interação de profissionais de várias áreas do conhecimento se fazem obrigatórias para a realização daquilo que essas instituições se propõem a fazer – assistir pacientes de forma segura e eficaz.

O grande desafio atual das instituições de saúde é o entendimento de que o ambiente hospitalar necessita ser analisado sob a perspectiva de um sistema seguro, e não somente composto de estrutura, processos ou pessoas de forma desarticulada com o resultado da instituição. Políticas institucionais de segurança do paciente e suas ramificações em todas as áreas do conhecimento que operam dentro dessas instituições foram o maior legado que o relatório do IOM deixou a partir de 1999 para os sistemas de saúde de todo o mundo.

No âmbito nacional, organizações, sociedades e instituições não governamentais vêm trabalhando de forma objetiva e sinérgica na construção de diretrizes assistenciais, alimentação de bancos de informações de melhores práticas assistenciais, sistemas de indicadores para benchmarking institucional, entre outras ações e também parcerias.

Os projetos de qualidade implantados nas instituições de saúde e a consolidação de certificações devem ser vistos como meios valiosos para que essa cultura da qualidade e segurança seja fluida dentro das organizações. A necessidade da construção de um arcabouço gerencial, como protocolos clínicos baseados nas melhores evidências, procedimentos, sistema de monitoramento e indicadores, investimento em capital humano e desenho de fluxos assistenciais nos dão a certeza de que o caminho para a melhoria contínua da qualidade e segurança do paciente transcende apenas o indivíduo. Estamos falando de desenhos institucionais.

O Hospital Pró Cardíaco dentro deste Movimento Segurança do Paciente vem trabalhando ao longo de alguns anos em ações estratégicas com desdobramentos locais, com o objetivo de tornar cada vez mais segura a sua prestação de seus serviços.

A criação e sustentação de uma cultura de segurança institucional é o grande alicerce dessas ações em todos os níveis hierárquicos, pois é a partir dela que iniciativas individuais e coletivas brotam de forma espontânea de todos aqueles profissionais que se encontram ligados diretamente à assistência ao paciente.  A cultura da segurança é o produto de valores, seja de um indivíduo ou de um grupo, atitudes, percepções, competências e padrões de comportamento, que de forma sinérgica e contínua determinam o envolvimento de uma organização frente ao gerenciamento da segurança do paciente.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Cuba registra a menor taxa de mortalidade infantil de sua história


Cuba terminou 2010 com uma taxa de mortalidade infantil de 4,5 por mil nascidos vivos, a menor no país ao longo de sua história.
O jornal Granma informou hoje que Villa Clara ancabeça a lista, com 2,5, enquanto sete outras províncias se situam de 5,0: 3,0 Holguín, Cienfuegos e Matanzas, 3,7, 4,4 Camagüey, Granma 4,7 e Pinar del Río e Sancti Spiritus, 4.9.
Explica que o município especial de Isla de la Juventud mostra 2.8, e as províncias com pontuação superior a 5,0 não ultrapassam a taxa de 5,7, um demonstrativo da equidade do sistema social cubano.
Além disso, 23 municípios declararam zero de mortalidade.
No ano encerrou com 127.710 nascimentos, 2,36 mil a menos que em 2009, embora 45 óbitos a menos.
Estes são os resultados dos trabalhos da Revolução para a saúde e o bem-estar da mãe e da criança, refere o jornal .
Acrescenta que há mais do que a confirmação dos esforços de um pobre e criminalmente bloqueado, que se estabeleceu como o país das Américas com a menor mortalidade infantil, indicador internacional que mede a qualidade com que uma sociedade cuida e protege a mulheres grávidas, o pós-parto e as crianças.
Entre os fatores que contribuíram para esses índices favoráveis são, em primeiro lugar, a vontade política do governo revolucionário para prestar cuidados de saúde a todos os cidadãos, com especial cuidado para as mães e crianças.
Eles também determinam a existência de um elevado nível de educação da população e um programa de vacinação que abrange treze doenças, com uma cobertura de quase cem por cento das crianças, o que levou à erradicação e controle de várias doenças evitáveis por imunização.
Também tem relação o fato de ter um sistema de saúde universal, acessível e gratuito para todos, com base em uma extensa rede de centros de saúde e centros de atendimento primário, bem como a promoção sistemática e campanhas de prevenção.
Em geral, a despesa per capita em saúde, que eram de 3,72 pesos em 1959 (com uma população de cerca de sete milhões), subiu para 576 pesos per capita em 2010, para os 11,2 milhões de habitantes.

(Com informações da AIN)

sábado, 8 de janeiro de 2011

A saúde na era Dilma

Dioclécio Campos Júnior
Médico, Professor Titular de Pediatria da UnB, Secretário da Criança do DF.
Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria


O ano de 2011 inaugura radioso mar co histórico para o Brasil. A sociedade evoluiu muito. Superou preconceitos. Reviu condicionamentos comportamentais herdados da cultura colonial. As mentes tornaram-se permeáveis a novas ideias. Romperam a rigidez dos fanatismos. Avançaram em visões progressistas nunca dantes concebidas.

Pela primeira vez o exercício da Presidência da República é confiado a uma mulher. O fato não tem só implicações simbólicas. Traz para o comando da nação a riqueza potencial das originalidades do gênero feminino. Mostra o quanto o país soube alargar a amplitude de sua consciência política ao longo do tempo. Um misto de respeito e sensibilidade humana a dar substância ao sincretismo cultural que reúne enormes diversidades em meio às quais se afirma o povo brasileiro, fenômeno tão bem descrito por Darcy Ribeiro.

O governo da presidente Dilma promete configurar singularidades sobejas. Projeta perspectivas favoráveis e animadoras, mormente no domínio da saúde pública. De fato, em seu pronunciamento de posse, declarou o Sistema Único de Saúde como prioridade. Foi além, ao dizer que quer “ser a presidente que consolidou o SUS, tornando-o um dos maiores e melhores sistemas de saúde pública do mundo”. Ao assim se expressar, revela honestidade pouco comum entre os gestores da saúde pública brasileira.

De fato, reconhece, com autenticidade, que o SUS não está consolidado. Até porque consolidar é tornar sólido, seguro, estável, segundo o Aurélio. Essa divisa de qualidade permanece distante. Nada dela o sistema público de saúde alcançou. Ao contrário, mergulha no caos, a despeito das suas inúmeras virtudes teóricas repetidamente cantadas em prosa e verso pela maioria dos militantes sanitaristas.

Dilma preferiu afinar-se com a opinião do usuário. Ninguém melhor para avaliar como anda a saúde no país. É quem vive, de fato, a qualidade do atendimento prestado à população. Consolidar o SUS supõe, antes de tudo, discuti-lo à exaustão, sem monopólios da verdade nem autoenganos. O que importa é criticá-lo, de forma construtiva, no intuito de rever conceitos já superados, objetivos destoantes da realidade, diretrizes que negam o direito do cidadão à melhor assistência à saúde de seu tempo. Tal iniciativa nunca ocorreu com o grau de isenção necessário. O tempo passa, as práticas mudam, a ciência aponta rotas distintas. A evolução não pode ser ignorada, sob pena de o SUS continuar patinando na pegajosa substância do atraso.

O fundamentalismo na saúde pública é distúrbio de comportamento inaceitável. Acomete parte expressiva dos gestores que lideram o espetáculo. Sonham até mesmo com o tombamento do SUS a fim de que se converta em patrimônio intocável. Nada mais equivocado. Um sistema de saúde não pode ser considerado obra acabada. Deve manter os princípios que o regem, mas incorporar as conquistas que contribuem para aprimorá-lo continuamente. É o horizonte que se vislumbra tão bem nas palavras da nossa presidente, ao acenar para a mudança do modelo de gestão como requisito inadiável da consolidação que anuncia.

As resistências corporativas, frequentemente maniqueístas, levantadas contra essa medida de forte alcance administrativo precisam ser vencidas. O SUS não pode continuar refém de caprichos ideologizados que o impedem de estar na vanguarda dos novos tempos para “ter como meta a solução real do problema que atinge a pessoa que o procura, com o uso de todos os instrumentos de diagnóstico e tratamento disponíveis, tornando os medicamentos acessíveis a todos, além de fortalecer as políticas de prevenção e promoção da saúde”, conforme enfatizou Dilma Roussef no discurso de chegada. Do contrário, ela não realizará o compromisso de “erradicar a pobreza que envergonha nosso país e impede nossa afirmação plena como povo desenvolvido”.

Como disse o sueco Gunnar Myrdal, prêmio Nobel de economia, “os povos são pobres e doentes porque produzem pouco, e produzem pouco porque são pobres e doentes para produzirem mais”. Esse círculo vicioso tem de ser quebrado por meio do investimento na saúde dos cidadãos. O SUS nasceu para o relevante papel de instrumento transformador da realidade. Não pode ficar parado no tempo. O próprio sistema de saúde pública da Inglaterra, famoso pela experiência acumulada, referência para o mundo, encontra-se em fase de profunda reformulação para não perder o rumo. Como o comando do nosso sistema está agora nas mãos de uma mulher, a gestação de um SUS consolidado há de ser a grande marca do governo Dilma.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Como alinhar a Mentalidade Enxuta aos requisitos do Sistema de Saúde?

Muitos profissionais e executivos da saúde têm duvidas sobre a aplicabilidade da mentalidade enxuta no sistema de saúde. É fácil de entender a rejeição da comparação de carros com pessoas e o paralelo do sistema de saúde e uma linha de produção de automóveis. No entanto, nas poucas – por enquanto – instituição de saúde que desenvolvem iniciativas dentro da mentalidade enxuta é notável o entusiasmo com os resultados e com o alinhamento das iniciativas enxutas aos requisitos do sistema de saúde.
Esse entusiasmo é fácil de entender. No início dos anos 2000, o Institute of Medicine (IOM) e o Institute for Health Improvement (IHI) nos EUA definiram de forma muito clara e objetiva quais seriam os requisitos de qualidade para qualquer instituição de saúde e para o sistema de saúde como um todo. As "Seis Dimensões do Cuidado" demarcam claramente o que sociedade como um todo espera do sistema de saúde: Uma Assistência à Saúde Segura; Eficaz; Centrada no Paciente; Eficiente; Ágil; e Justa.
Ao aplicarmos os conceitos fundamentais da mentalidade enxuta, vamos diretamente de encontro a esses requisitos. Os "Fundamentos da Mentalidade Enxuta" são: identificar o valor para o cliente; analisar o fluxo de valor e eliminar desperdício nos processos; criar o fluxo contínuo; criar a produção puxada integrando todas as partes da cadeia de valor; e buscar a perfeição.

Misturando os conceitos: as "Seis Dimensões do Cuidado" e os "Cinco Princípios Lean":
  • Segurança. O sistema de saúde sofre profundamente com a falta de segurança: os processos desorganizados e com interrupções constantes; fragmentações e inconsistências no manejo das informações colocam milhões de pessoas em risco e milhares são vitimas de erros e complicações evitáveis. Ao "identificar e mapear o fluxo de valor" sob a perspectiva do cliente, a mentalidade enxuta pretende criar um processo perfeito, livre de erro, reduzindo drasticamente seus riscos. Todas as "ferramentas enxutas" foram desenvolvidas para buscar essa "perfeição no processo": eliminar os desperdícios de maneira incansável (sendo que os desperdícios associados a "defeito" ou "retrabalho" podem custar vidas no sistema de saúde). O conceito de "jidoka" (que significa "introduzir inteligência na máquina" – usando ferramentas para solução de problemas) é um dos pilares da mentalidade enxuta na busca da perfeição (do processo livre de erro e desperdício).
  • Eficácia. O foco no que é "valor do ponto de vista do cliente" e o "jidoka" definem qual a taxa de eficácia (a "perfeição") esperada em cada processo e dentro do sistema como um todo. A eficácia emerge da padronização e da melhoria contínua, ambos são fundamentos da mentalidade enxuta. Devemos oferecer o "tratamento correto ao paciente certo no momento certo"!
  • Centrado no Paciente. O fluxo de valor tem como foco o próprio paciente, e os processos e sistemas são desenhados identificando qual é a trajetória do cliente no processo, focando nas suas necessidades e expectativas dentro de cada etapa; criando um fluxo contínuo e suave na trajetória do cliente pelo processo. A mentalidade enxuta é centrada no paciente por definição.
  • Eficiente. Processos enxutos são mais eficientes. O foco na separação do que é "valor" do que é "desperdício"; na implantação de sistemas mais seguros (mais inteligentes) aumentam muito a eficiência do processo reduzindo as taxas de erro (e riscos); o tempo de processamento e aumentando a capacidade de produção do sistema, tornando-o mais eficiente.
  • Agilidade. Processos mais seguros; livres de erro e desperdícios (associados à movimentação, por exemplo); e focados no que cria valor para o cliente são naturalmente mais ágeis, com um fluxo contínuo e livre de interrupções e esperas desnecessárias (processo puxado). A agilidade vem da eliminação do desperdício oculto em processos mal desenhados, inseguros e repletos de erros (riscos), defeitos e retrabalho.
  • Justiça. Um tratamento justo significa oferecer assistência à saúde independente de raça, status social, econômico, geográfico ou religioso. A mentalidade enxuta, ao se comprometer a oferecer "tratamento correto ao paciente certo no momento certo", se compromete também com a justiça na assistência. Mais ainda, ao estar focada no significado do valor para o cliente, pode identificar variabilidades culturais, sociais ou econômicas e buscar a "experiência do cuidado perfeito" para todos.

sábado, 20 de novembro de 2010

Segurança do paciente: número de mortes por eventos adversos ainda é grande

“Os números de eventos adversos são assustadores.” Foi essa a conclusão do médico José de Lima Valverde, Coordenador de Acreditação para Planos de Saúde do Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA), que representou a instituição no III Fórum Internacional sobre Segurança do Paciente: Erros de Medicação, realizado em setembro, em Ouro Preto, Minas Gerais.
Especialistas internacionais revelaram que ocorrem cerca de 195 mil mortes por ano nos Estados Unidos, devido a erros que poderiam ser prevenidos, principalmente aqueles referentes a erros de medicação e a eventos sentinela ocasionados por falhas nas distintas fases do gerenciamento e uso de medicamentos. A questão já tinha sido levantada no final de 1999, pelo Institute of Medicine (IOM) que publicou dados do Harvard Medical Practice Study realizados na década anterior, que mostraram que entre 44000 e 98000 americanos morrem, a cada ano, vítimas de erros relacionados à saúde, o que seria equivalente à queda de um jumbo por dia, nos USA.
O representante do CBA apresentou os padrões e as metas internacionais de segurança do paciente preconizada pela Joint Commission International (JCI), representada com exclusividade pela entidade no Brasil. Valverde assinala que essas recomendações estabelecem medidas que visam à segurança de medicamentos, em toda a cadeia do sistema: seleção, aquisição, armazenamento, dispensação, administração e monitoramento. “Em todas estas fases o Manual de Padrões recomenda a elaboração e implantação de políticas, procedimentos e processos específicos e transdisciplinares”, valoriza.
Segundo Valverde, os hospitais acreditados pela JCI/CBA levam vantagem no quesito segurança do paciente, já que a acreditação internacional recomenda que sejam previamente definidos seus riscos assistenciais e ambientais, criados a gerência e gerentes de riscos, o estabelecimento das ferramentas de previsibilidade de risco, definido os eventos sentinela, por exemplo. “Os hospitais acreditados pelo CBA realizam análise de causa-raiz quando estes ocorrem, monitoram a qualidade assistencial por indicadores e, sobretudo, investem em educação continuada e treinamento de seus colaboradores. Além disso, utilizam as falhas como uma oportunidade de melhoria, ao contrário do viés punitivo”, ressalta o coordenador do CBA. “Zerar erros não nos parece possível mas, certamente, aqueles que não implantarem medidas efetivas de segurança terão zeros acrescidos aos seus números, indubitavelmente. A grande questão é que a maioria dos hospitais, não monitora e, portanto, desconhece seus erros”, ressalta Valverde, dizendo ainda que os hospitais acreditados educam e treinam seus colaboradores para a identificação correta do paciente, antes da administração de medicamentos ou da realização de procedimentos, utilizando, pelo menos, duas formas de identificação que não sejam o número do quarto ou do leito, valendo-se do nome completo e data do nascimento ou do número do registro. José Valverde também chama atenção para a educação dos pacientes e familiares para que saibam quais perguntas devem fazer aos profissionais de saúde, antes de aceitarem e se submeterem a procedimentos, incluindo o consentimento informado. “O monitoramento de eventos adversos é fundamental e, os hospitais acreditados estimulam seus colaboradores no sentido de informarem a gerência de qualidade, eventos que tenham ocorrido”, afirma.
Valverde ressaltou que no evento foram abordadas ainda diversas questões relevantes, como o papel do farmacêutico clínico, a interdisciplinaridade do processo de gestão e uso de medicamentos, a adequada prescrição médica, orientada por políticas, a dispensação e preparação de fármacos, a questão do controle de eletrólitos concentrados e de medicamentos de alta vigilância.

sábado, 13 de novembro de 2010

Onde estão os pediatras?

Zero Hora
13 de novembro de 2010

A CENA MÉDICA | MOACYR SCLIAR

  • Onde estão os pediatras?

    Uma recente e importante pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais em todo o país reflete a dimensão de um problema que chama a atenção dos responsáveis pela saúde pública e que é sentido pela população com grande intensidade: trata-se da carência de pediatras, médicos de família e clínicos gerais, ou seja, aqueles profissionais que resolvem, ou poderiam resolver, 80% dos problemas de saúde.

    Estamos falando de uma carência que não é pequena, registrada em quase um quarto (23,1%) dos municípios brasileiros, sobretudo os menores, e sobretudo os do Norte e do Nordeste. Cerca de dois terços (64,3%) dos hospitais públicos e privados de Minas Gerais têm dificuldade para contratar pediatras, os piores resultados entre 22 especialidades pesquisadas, como anestesiologia e cardiologia.

    *

    A percentagem de pediatras entre os médicos caiu de13,5% em 1996 para 10% atualmente. E no entanto a pediatria sempre teve um apelo muito forte para estudantes de Medicina; afinal, cuidar de crianças doentes mobiliza o que temos de melhor, e é por isso que, na minha turma, um grande número de colegas, todos de excelente nível, encaminhou-se para a prática pediátrica. O que, então, mudou?

    Analisando o assunto, o Conselho Regional de Medicina de SP (Cremesp) faz algumas considerações que ajudam a entender as razões dessa desconcertante mudança. “O médico pediatra é, antes de tudo, um orientador”, diz o documento. Mais do que isto, o pediatra deve estar qualificado para atender aos vários problemas que surgem na medicina geral.

    E isto coloca a especialidade na contramão dos rumos da medicina atual, na qual a especialização é a regra e na qual a conversa com a família, da qual resulta a orientação pediátrica, é substituída por exames e procedimentos e pela obviamente necessária implantação de unidades de terapia intensiva (UTIs) neonatais e pediátricas.

    Há, no pediatra brasileiro, uma diminuição da autoestima; são profissionais trabalhando com baixos salários e em condições inadequadas. Pelo menos este último fator, diz o Cremesp, poderia ser corrigido: “Uma melhora na remuneração dos médicos reduziria a prática de trabalhar em vários hospitais, o que acaba esgotando o profissional, que não tem tempo para se atualizar como deveria.” Igualmente um plano de carreira representaria um estímulo profissional de primeira ordem.

    Precisamos de pediatras, de generalistas, de médicos de família. É a nossa situação de saúde que assim determina. E são sobretudo as crianças que o exigem.